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Inovação

As reflexões do SXSW 2019 sobre a vida moldada por algoritmos

27/03/2019

Foto: Anne Cox

Existe uma diferenciação clássica entre o que é “dado” e o que é “informação” que precisa ser relembrada no contexto atual. “Dados” são os cliques, as curtidas, as buscas, as compras que você faz. “Informação” é a complexa interpretação dessa infinidade de dados.

Na trilha que eu fiz pelo SXSW 2019 (leia meu relato aqui), percebi a recorrência da seguinte questão: será que coletando mais dados teremos mais informações e, como consequência, tomaremos decisões melhores? Ou ainda: realmente precisamos de mais e mais dados, seja como empresas, seja como indivíduos?

Há controvérsias. Mas não podemos fugir do fato de que esse mecanismo de interpretação está moldando não só o mundo a nossa volta, mas também a nós mesmos.

Não somos bons em perceber todo o impacto das novas tecnologias. Aparentemente, elas são apenas ferramentas em nosso cotidiano. Mas, como lembrou Emma Chiu, da J.W Thompson, a mudança pode ser profunda: a máquina de lavar roupas mudou a dinâmica familiar, e os celulares hoje são muito mais do que aparelhos telefônicos. Esquecemos que essas ferramentas estão inseridas em sistemas complexos – famílias, empresas, cidades – e que impactam todo o sistema, não apenas o usuário da tecnologia.

E assim, sem perceber as consequências, somos moldados pelos dados que geramos com as nossas ferramentas.

Filtrar e selecionar o que importa

Pela primeira vez na história, o problema não é mais a falta de informação. Hoje, a dificuldade está em selecionar o que realmente importa.

O que mais tem impactado o nosso desempenho (e o bem-estar) é o excesso de informação. Ryan Holiday, em sua palestra sobre estoicismo, lembrou de Cal Newport, que resume assim o atual conceito de inteligência: o foco tornou-se o QI do século XXI.

Não é exagero: dá para medir a inteligência de alguém com base em como ela lida com o excesso de dados. E eis um conselho constante no SXSW: ser um bom curador é uma habilidade valiosa. Ela é essencial a um bom vendedor, que precisa saber encontrar a melhor opção para o seu cliente em meio a tantas outras. Mas é também um ativo precioso para o próprio curador, que sabe separar o que é relevante do que é ruído para si mesmo.

E a melhor forma de selecionar? Ryan Holiday sugere um caminho clássico: a via negativa. Primeiro, é preciso definir qual informação eu não preciso. E por eliminação, ficar com o que importa. Remover as palhas para encontrar a agulha.

Quais dados estamos consumindo?

Quando foi a última vez que você ficou sem fazer nada? Essa foi a principal provocação do escritor Austin Kleon.

Neil Gaiman, talvez a presença mais ilustre do SXSW 2019, tem uma fórmula notória para vencer a procrastinação: ficar muito entediado. E então, sem nada para fazer, sentar e começar a escrever.

Se você passar a vida se distraindo em redes sociais, por exemplo, não vai descobrir o que há do outro lado do tédio. É para ter distração constante que criamos toda essa tecnologia? A propósito, alguém ainda lembra do conceito de ócio criativo?

Menos opinião, pois não vale a pena

Será que as suas publicações, comentários e compartilhamentos (os dados que você gera) estão ajudando você a chegar aonde você quer? Ou então estão de acordo com aquilo que você acredita? Sobre esse assunto, Brené Brown sugeriu que, antes de entrar em qualquer discussão, é preciso refletir sobre a real necessidade do envolvimento. Ela lembra que, quase sempre, a melhor opção é se retirar cordialmente e focar (o QI do século XXI) no que importa.

E aqui entra um dos grandes insights que tive no SXSW 2019: quais dados e informações você considera mais importantes? Aquilo que você mede orienta as suas decisões! Um exemplo: se você ou sua empresa estão medindo curtidas, você vai trabalhar para ter mais curtidas. No entanto, se vocês estão medindo, digamos, resolução de problemas, o objetivo do trabalho vai ser outro.

Talvez o problema não esteja nos resultados do seu trabalho. Talvez você apenas esteja usando a régua errada.

Mais e mais marketing digital

Já era de se esperar a grande quantidade de empresas de dados na exposição do SXSW 2019. Um bom exemplo: nas andanças pelo salão de expositores, conversamos durante meia hora com a Alpha.One, uma startup da Holanda que ajuda anunciantes a entenderem a efetividade das suas campanhas ao medir o fluxo de sangue e oxigênio no cérebro de quem as assiste. Eles conseguem extrair dados sobre você que nem você saberia explicar: é uma espiada tímida, mas assustadoramente promissora, no nosso inconsciente.

Acompanhei um painel sobre o WeChat, plataforma chinesa que já tem mais de 1 bilhão de usuários. Nela você faz praticamente tudo que precisa sem sair do aplicativo. Seria como juntar o Uber, o iFoods, o PayPal e o Facebook (entre outros!) na mesma plataforma. Essa integração facilita a coleta de dados, o que representa um sonho para os anunciantes. O WeChat está conseguindo fazer o que o Facebook sonha: segurar o usuário dentro da sua rede, o tempo todo. A propósito, quantas horas por dia o Facebook (mais Instagram e Whatsapp) “segura” você lá dentro?

E outra provocação do Austin Kleon: que tal se você (ou a sua empresa) usassem as redes sociais para aproximar, experimentar e descobrir – e não apenas como ferramenta de autopromoção?

Uma certa exaustão

Posso estar enganado, mas venho percebendo um desgaste na forma já tradicional de “impactar” pessoas online. Todo mundo disputando a sua atenção com base nas suas preferências. Será que a fórmula tradicional de anúncios antes ou durante a atração, como sempre foi a TV e o rádio, vai ser o modus operandi também dos canais digitais?

Ao perambular pela exposição de startups do SXSW, você percebe que a exploração dos dados está em toda a parte: todo mundo querendo ajudar você a medir alguma coisa. Enquanto isso, na realidade, mal sabemos o que o mais valioso cliente anda pensando. Contra dados não há argumentos? Pode ser. Mas não podemos deixar a tecnologia substituir as interações essenciais.

Lembre-se da história do ser humano: somos moldados pela forma como usamos as nossas ferramentas.

Conteúdo produzido em colaboração com Lucas Miguel Gnigler, diretor de operações do grupo D/Araújo Comunicação. 


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